CELEIRO DO MUNDO

O sol vai se descambando
Sobre os rincões tropicais
O horizonte avermelhando
Nas linhas continentais
E a tarde se amorenando
Na borda dos matagais
Lá no céu vem despontando
Os luzeiros celestiais
Raios da lua prateando
Os quatro pontos cardeais
É a natureza anunciando
Que o dia vai se findando
Dos pampas aos seringais

O lavrador regressando
Das glebas de plantação
Deixa a roça verdejando
No entardecer do sertão
Vendo a semente brotando
Do ventre fértil do chão
Pede a Deus que seja brando
O clima da nova estação
Com sol ou chuva lavrando
Cumpre uma nobre missão
E a safra segue aumentando
Com seu trabalho gerando
Divisas para a nação

Esta festa cinquentenária
Tem raiz e valores profundos
O rodeio é uma herança primária
Dos manejos da lida pecuária
Reduzidos em oito segundos
O suor do caboclo guerreiro
Irrigando este solo fecundo
Mostra a saga do brasileiro
Ostentando para o estrangeiro
Que o Brasil é o celeiro do mundo

No campo e no estradão
Trava-se a grande batalha
Na vida rude de um peão
Que mora em cima da tralha
Esse herói da profissão
Com sol e chuva trabalha
Na engorda e na criação
Nosso rebanho não falha
O gado mantém o padrão
Dos campeões de medalha
Para o Brasil ser campeão
Na bolsa de exportação
Enquanto a fama se espalha

Pra ser um país valente
Não precisa fazer guerra
A paz é o grande expoente
Que o civilismo encerra
O Brasil deixa evidente
Que a nossa fé não emperra
Cada vez eu sou mais crente
Que Deus nasceu nesta terra
Com o progresso crescente
Quem investe nunca erra
Peço ao Pai onipotente
Protegei toda essa gente
Dos vales, campos e serra

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A CRUZ DO CAMINHO

Na curva daquela estrada que leva a Porto Murtinho
Há uma cruz abandonada na encosta do caminho
Um dia parei pra ler o que nela havia escrito
Li o dia, mês e ano e o nome João Benedito
Toquei a boiada em frente e segui minha viagem
Mas sempre vinha na mente aquela triste paisagem
Eu nunca tinha viajado naquela estrada selvagem
E no escuridão da noite foi me faltando coragem

No outro dia bem cedo quando entramos na cidade
Alguém de idade avançada me implorava piedade
E me disse boiadeiro, me ajude por caridade
De notícias do meu filho pra matar minha saudade
Então perguntei a ela o que havia acontecido
E a velhinha me falou sobre o seu filho querido
Que há tempos com a comitiva no estradão tinha seguido
E nunca mais regressou, quem sabe tinha morrido

Frente aquela situação eu fiquei embaraçado
Mas perguntei qual o nome do seu filho adorado
Ela me disse, é João Benedito, ele é um peão afamado
Já faz mais de cinco anos que por ele tenho esperado
Eu disse que o seu filho trabalhava em Corumbá
Só que fazia dois meses que saí pra viajar
Mas que ele vivia bem tocando boiada por lá
E qualquer hora, com certeza, viria lhe visitar

Quando entreguei a boiada começava a escurecer
Eu dispensei a peonada pra reunir no amanhecer
Parei na antiga pousada e tentei adormecer
Mas daquela mãe aflita não conseguia esquecer
Antes de pegar no sono no meio da escuridão
Ouvi uma voz me dizendo: – me escute eu sou o João
Eu voltei pra agradecer a esse amigo peão
Por você ter consolado minha mãe do coração

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A TIGELA DE MADEIRA

Um senhor de idade avançada
Foi morar com seu filho casado
Já que os trancos da vida passada
Recaiu no seu corpo cansado
Suas mãos viviam tremulando
E a visão ficava embaraçada
Os seus passos foram se encurtando
Na bengala vivia escorando
Porque o tempo é uma carga pesada

A família arrodeava na mesa
Pra servir-se com satisfação
Mas o velho com sua fraqueza
Derrubava o garfo da mão
Mal podia comer de tristeza
O seu prato de arroz com feijão
Mesmo tendo prudência e recato
Toda vez que mexia no prato
A comida caia no chão

Certo dia seu filho e a nora
Irritados com a situação
Pra não mandar o velho embora
Decidiram buscar solução
Colocaram uma mesa pra fora
Na varanda do velho galpão
Pra evitar anarquia e sujeira
Em uma tigela de madeira
Preparavam sua refeição

O netinho de apenas dez anos
Pelo avô tinha grande afeição
Logo foi orquestrando seus planos
Pra vingar daquela ingratidão
Dando exemplo aos seres humanos
Que não tem amor no coração
Foi fazendo uma tigelinha
Bem igual a que seu avô tinha
E colocou ao lado do fogão

O seu pai encontrou a tigela
E perguntou com indignação
O que o filho faria com ela
O que ouviu lhe serviu de lição
A velhice é uma triste mazela
Todo homem será um ancião
E quando chegar sua hora
Na tigela que eu fiz agora
Vou servir a sua refeição

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CADEIRA VAZIA

Nas horas sublimes de contemplação
Faço regressão pelo mundo da arte
Meu senso improvisa a visão do jazigo
Repouso do amigo que fez sua parte
Não acendo velas nem coloco flores
Renego valores externos da mente
Faço reverência ao seu transparecer
Condão do saber do seu dom evidente

Cantando a toada eu revejo a montanha
A casinha estranha a beira do caminho
A cena projeta um mundo de aquarela
E desenha a janela do pobre ranchinho
No facho de luz de um lampião se apagando
A arma alumiando e a cabocla no chão
Um cabra assustado embargado de dor
Confessa ao doutor que matou por traição

São os devaneios de quem admira
A obra caipira do humilde João
Que fala da essência da vida na roça
Da velha palhoça e a lida no sertão
Poeta não morre é uma frase de efeito
Porque o seu feito transforma em legado
Enquanto existir um caboclo violeiro
Seu canto fagueiro será relembrado

Descanse em paz oh grande menestrel
Segue o seu papel na orquestra seleta
Porque neste mundo de materialismo
Tratam com cinismo a obra do poeta
O imortal se vai uma chama se apaga
E deixa uma vaga lá na academia
Os novos poetas ostentam bandeira
Mas sua cadeira ainda está vazia

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BOIADEIRO DO PANTANAL

De repente uma boiada surge lá no estradão
E a poeira avermelhada parece um lençol no chão
Na frente vem o ponteiro dirigindo a comitiva
Boiada e boiadeiro parecem uma lenda viva
Quando o sol for se escondendo lá no rio Paraguai
O luar clareia a estrada e o manto da noite cai
Boiadeiro faz parada boiada vai descansar
Quando a roda está formada tem uns “causos” pra contar

O que leva um boiadeiro na garupa do alazão?
– Carne pro arroz carreteiro tereré e chimarrão
O que leva o boiadeiro a sofrer na solidão?
– Saudade dos companheiros dos seus pais e seus irmãos
Sente um aperto no peito ao lembrar sua paixão
De saudade da morena dona do seu coração

A boiada vai nadando no remanso dos corixos
O berro dos pantaneiros levanta o vôo dos bichos
Lá no Rio Taquari com fibra e com valentia
O peão atravessa o gado no Porto Santa Luzia
O ponteiro joga o laço pra trazer um marruá
Que desgarra da manada num bosque de carandá
Quem conhece dá valor a essa lida boiadeira
Que enobrece a peonada numa saga pantaneira

Quando dorme no sereno sonhando com sua amada
No sonho o boiadeiro confunde amor com boiada
Um amor ficou distante há muitas léguas passadas
Outro amor é o berrante, comitiva e peonada
Depois das águas da cheia o peão retoma a estrada
A viagem é mais ligeira quando volta pra morada
Sabe que a sua morena espera mais apaixonada
De longe toca o berrante anunciando a chegada

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ASSISTINDO NOVELA

Eu saia do serviço
Por volta das seis e meia
Desgastado do trabalho
Cansado e de cara feia
Passava no bar do esquina
E tomava uma taça cheia
Depois eu ia pra casa
Vermelho feito uma brasa
Babando e de cara cheia

Minha mulher reclamava
E não servia o meu jantar
Até que um dia se cansou
E começou a ameaçar
Trancava a porta do quarto
Eu só dormia no sofá
Eu não era acostumado
Sentia um frio danado
Resolvi regenerar

Um dia eu falei pra ela
Deixa disso meu benzinho
Ando com dor na coluna
De tanto dormir sozinho
Acordo de madrugada
Procurando o seu carinho
Se você me perdoar
Nunca mais entro no bar
Volto por outro caminho

Hoje as coisas estão mudadas
Nosso lar é só alegria
Eu volto pra casa cedo
Antes de findar o dia
Só tomo refrigerante
Ou suco de melancia
Mandei fazer um pijama
E não vomito mais na cama
Credo em cruz Virgem Maria

Nossa vidinha mudou
Nunca mais ela brigou
E renasceu nossa paixão
Assisto televisão
Debaixo do cobertor
Fico assistindo novela
Sentadinho ao lado dela
Lá em casa não tem mais briga
Só tem paz não tem intriga
Nossa vida é muita bela

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A MULA APAIXONADA

A minha mula arrumou um “cumpanheiro”
E desde o último janeiro
Já não “qué” mais “trabaiá”
Pula o cercado e urra de felicidade
Vai correndo pra cidade
E passa o dia a “namorá”
De tardezinha ela vem toda manhosa
Se fazendo de dengosa
Com medo de “apanhá”
Me lambe o braço relinchando de contente
Chega dá medo na gente
Do jeito que a mula “tá”

Ah… Minha mulinha
Não faça isso comigo
Sou seu dono seu amigo
E sem você num “vo” “ficá”
Deixe de manha
Não me largue aqui na roça
Que eu arranjo “na paioça”
Um quarto pro “cê” “morá”

Um dia desses ela chegou toda assanhada
Já era de madrugada
E relinchou pra me “acordá”
Saí correndo abrindo porta e janela
E dei de cara com ela
No terreiro a me “espiá”
Minha mulinha “tava” toda enfeitada
Com as “unha” envernizada
Usando brinco e colar
Do lado dela um burrinho cara chata
Veio me pedir a pata
E permissão pra se casar

Ah… Minha mulinha
Não faça isso comigo
Sou seu dono seu amigo
E sem você num “vo” “ficá”
Deixe de manha
Não me largue aqui na roça
Que eu arranjo “na paioça”
Um quarto pro “cê” “morá”

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AMARGO REGRESSO

Num fim de semana nublado e sem cor
Cansado da vida na grande cidade
Arrumei a mala e fui pro interior
Pra rever quem tanto me dava saudade
Na cidadezinha onde eu me criei
Parentes e amigos a tempos deixei
Lá tambem ficou a felicidade
Abracei meus pais na porta da casa
Senti no abraço aquele amor pacato
O fogão de lenha estalando brasa
Perfumava o ar com cheiro do mato
Matei minha sede na bica da mina
Que verte de um olho d’água cristalina
E corre mansinho formando um regato

Ao cair da noite o povo reunido
Traziam lembranças no meu pensamento
Os pares dançavam sobre o chão batido
As horas pararam naquele momento
Até a natureza estava do meu lado
Lá na imensidão um céu estrelado
Enfeitou de luzes todo o firmamento
Dois dias de festas me fez esquecer
Da lida agitada na grande cidade
Onde a vida passa e só dá viver
Como um objeto da modernidade
Mas felicidade é uma emoção ingrata
Quando vai embora uma dor que mata
Fica em seu lugar em forma de saudade

Na segunda-feira arrumei minha mala
Os meus pais vieram pra me abraçar
Ficamos chorando no meio da sala
Meus dias tranqüilos eu vi terminar
Foi mais um encontro com a felicidade
Embora não fosse a minha vontade
Pra grande cidade eu tinha que voltar
Voltei refletindo ao longo da estrada
Que o grande centro me dá projeção
Mas de outro lado aqui não sou nada
Apenas mais um entre a multidão
E no interior se vive de verdade
Não há interesses por trás da amizade
Lá se ouve a voz que vem do coração

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BARRETOS TRADIÇÃO E PROGRESSO

No Brasil dos tempos coloniais
Foi passagem para os bandeirantes
Que adentravam pelos mananciais
Nos garimpos de ouro e diamantes
Com a escassez da mineração
Estancou a extração garimpeira
Foi paragem para a migração
Que arribava da terra mineira
Ao chegar com sua expedição
Os Barretos tomados de encanto
Devotados pela religião
Ofertaram um pedaço de chão
Ao Divino Espírito Santo

Sobre esteio e vigas de aroeira
Num coberto de capim sapé
Foi erguida a capela pioneira
Pra ser um monumeto de fé
A cultura da essência caipira
Florescia na humilde aldeola
Sapateando e palmeando a catira
Nas cantigas de moda de viola
Esse marco do inicio da história
Hoje é o largo da praça central
Os anais que relata a memória
Simboliza um traçado de glória
Que brotou no pequeno arraial

Foi um berço de republicano
Liderado por Almeida Pinto
Na articulação do seu plano
Era ilustre correto e distinto
Com a sua estratégia brilhante
Seu conceito chegou a capital
Ao eleger o seu representante
Para o parlamento imperial
Repercutiu no país inteiro
O discurso desse pensador
Ao declarar em tom altaneiro
Vamos ter um filho de tropeiro
Frente a frente com o imperador

Comitivas de heróicas peonadas
Lá das bandas de Minas Gerais
Arrebanhavam grandes boiadas
No chão de mato groso e Goiás
A jornada era de longos dias
Sob o sol do escaldante estradão
Arriscando se nas travessias
Nas tormentas dos rios da região
A excelência da topografia
E invernadas de belas pastagens
Trouxe o ciclo da soberania
Da pecuária de corte e de cira
E das raças de alta linhagem

Ao chegar ao fim do corredor
Nas pousadas dos boiadeiros
Com talento um peão domador
Adestrava os pagões pros vaqueiros
Monta e doma de um redomão
E oo ajoujo de uma rês perdida
Inspiraram a festa do peão
Tradição dos maneios da lida
A herança é o passado fecundo
Que alicerça os degraus do sucesso
Ostentando um legado profundo
Que Barretos tem fama no mundo
E no Brasil é pólo de progresso

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ALÉM DOS VERSOS

Eu não ti vejo, mas falo sobre a tua existência
Como um passo sobre as pedras… Pedras pisadas das ruas
Vives entre os homens, perdido nas esquinas
És mãos do vento que enverga o arco da madrugada
Vem no calor dos raios ensolarados das manhãs
E no olhar de quem vê por de trás das cortinas
Renovas a esperança de quem vive esquecido
Dá brilho a luz que há no facho do clarão que escapa
Pela fenda estreita da porta de uma casa vazia
A única visão que alguém guarda deste mundo

Queria descrever-te além dos versos
E ver além de tudo que já é visível
Poder tocar teu corpo em tua presença
Sentir muito mais do que já é possível

Eu sinto e sei por onde e quando estás presente
Conheço o teu cheiro, experimentei teu gosto
Saciei-me no teu sabor e em tudo que traz doçura
Apesar do sal que envolve a lágrima da emoção
Quando me deixas com o meu olhar mais colorido
Frente as cores dos mais belos campos florescidos
Entre as folhas que despontam sobre a relva rasteira
E quando vem se hospedar em meu coração
Acaba com esta angústia que brota dentro de mim
Através das visões que eu guardo deste mundo

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